Por ser hoje…

15/10/2008

I am the escaped one,
After I was born
They locked me up inside me
But I left.
My soul seeks me,
Through hills and valley,
I hope my soul
Never finds me.

Fernando Pessoa


Enriquecedor…, mas desconhecido!

14/10/2008

É conhecida de todos os encarregados de educação, a medida de política educativa promovida pelo Ministério da educação, de prolongar o horário escolar no 1º ciclo das 9 às 17,30 horas, com o intuito de pretender assegurar a todas as crianças que frequentam a escola primária as chamadas actividades de enriquecimento curricular, AEC.

As autarquias de entre outras entidades, surgiram como parceiros naturais no implementar desta prática, sendo a todos os titulos louvável a constituição da Câmara Municipal da Nazaré como entidade promotora para o concelho, chamando para si um ónus do esforço financeiro, serviços e recursos humanos afectos a tal decisão.

Para nós pais e encarregados de educação, é a todos os titulos gratificante perceber que o município está sensível ás questões da educação e toma parte activa na promoção de medidas que visam enriquecer as nossas crianças. Este estado de graça no entanto, foi abalado no ínicio do ano lectivo e com o passar dos dias passou de um reconhecimento sentido, a uma preocupação desconcertante.

No dia 12 de setembro, aquando da reunião com o Professor titular para as devidas apresentações formais e troca de impressões sobre a orgânica da escola e das aulas, constatou-se para espanto de encarregados de educação que os professores das AEC, ainda não tinham sido apresentados ao titular, pelo que era de todo impossivel saber-se à data, quem no primeiro dia de aulas, estaria a leccionar as referidas, bem como desvanecer uma série de dúvidas inerentes ao normal funcionamento das AEC. Esta situação apesar de causar alguma estranheza e desconforto foi atenuada por uma eventual “confusão” própria de início de ano lectivo, aguardando-se novidades para o decorrer da primeira semana de aulas.

Durante o decorrer da segunda semana de aulas, com a situação inalterada, foi indagado o Presidente do Concelho Executivo do Agrupamento de Escolas da Nazaré, Professor Jorge Augusto Sousa, que demonstrou uma disponibilidade e receptividade a toda a prova, mas não conseguiu providenciar respostas para as questões, porque simplesmente, apesar das tentativas de reunião com algum responsável camarário pelas AEC, esse encontro ainda não tinha sido conseguido.

Chegamos pois ao dia 8 de Outubro de 2008, data em que estas linhas estão a ser redigidas e surpreendentemente ou não, não foi realizada uma reunião entre a entidade promotora das AEC e qualquer dos três, encarregados de educação, Professor Titular e Presidente do Concelho Executivo.

Dúvidas pertinentes atormentam os pensamentos dos pais e encarregados de educação face a uma tão aparente desconcertação. Urge saber de que forma as AEC estão a ser planificadas. O que estão afinal os nossos meninos e meninas a fazer, como e com quem, nos horários atribuidos a estas actividades? Esta planificação deveria ser levada a cabo com a parceria e supervisão do Agrupamento de Escolas, não havendo concertação, quem a estará a realizar? Como é que se enquadram no Projecto Educativo do Agrupamento, no Projecto Curricular do Agrupamento, bem como no Projecto Curricular de Turma?

As AEC vão avaliar os alunos? Em que moldes? Uma questão interessante e da maior pertinência surge quando a avaliação do desempenho dos professores está na ordem do dia. Estes professores vão ser avaliados? Por quem e de que forma?

Existe horário de atendimento? Qual é? A quem nos devemos dirigir no sentido de clarificar mais um sem fim de questões que estão por responder?

É chegada a altura de colocar um fim a este “estranho” estado de coisas. As crianças e a educação são assuntos demasiado sérios para estarem envoltos nesta invulgar cortina de desconhecimento. Exigimos e queremos contribuir para AEC com objecto e método bem definidos e conhecidos a par de uma boa articulação com os planos curriculares de turma. Não queremos que a escola seja um mero armazém, um depósito de crianças “entretidas”. Assim possam as AEC ser aquilo que realmente devem constituir, mais valia na ajuda da formação de cidadãos responsáveis e esclarecidos.

 

 

     Grupo de encarregados de educação/pais da escola básica 1 da pederneira, nazaré

(carta ao director do Região de Cister)

MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO
Gabinete da Ministra
Despacho n.º 14460/2008
1 — O presente despacho aplica -se aos estabelecimentos de educação e ensino público nos quais funcione a educação pré -escolar e o 1.º ciclo do ensino básico e define as normas a observar no período de funcionamento dos respectivos estabelecimentos bem como na oferta das actividades de enriquecimento curricular e de animação e de apoio à família.

8 — As actividades de enriquecimento curricular no 1.º ciclo do ensino básico são seleccionadas de acordo com os objectivos definidos no projecto educativo do agrupamento de escolas e devem constar do respectivo plano anual de actividades.

15 — Os agrupamentos de escolas devem planificar as actividades de enriquecimento curricular em parceria com uma das entidades referidas no número anterior, mediante a celebração de um acordo de colaboração. Preferencialmente essa planificação deve ser feita com as autarquias locais, que se constituem como entidades promotoras.

31 — É da competência dos educadores titulares de grupo e dos professores titulares de turma assegurar a supervisão pedagógica e o acompanhamento da execução das actividades de animação e de apoio à família no âmbito da educação pré -escolar bem como de enriquecimento curricular no 1.º ciclo do ensino básico, tendo em vista garantir a qualidade das actividades, bem como a articulação com as actividades curriculares.

32 — Por actividade de supervisão pedagógica deve entender -se a que é realizada no âmbito da componente não lectiva de estabelecimento do docente para o desenvolvimento dos seguintes aspectos:
a) Programação das actividades;
b) Acompanhamento das actividades através de reuniões com os representantes das entidades promotoras ou parceiras das actividades de enriquecimento curricular;
c) Avaliação da sua realização;
d) Realização das actividades de apoio ao estudo;
e) Reuniões com os encarregados de educação, nos termos legais;
f) Observação das actividades de enriquecimento curricular, nos termos a definir no regulamento interno.

33 — A planificação das actividades de animação e de apoio à família no âmbito da educação pré -escolar, bem como de enriquecimento curricular no 1.º ciclo do ensino básico deve ser comunicada aos encarregados de educação no momento da inscrição e confirmada no início do ano lectivo.


Eterno Retorno

14/10/2008

A manhã sacode-me para fora do sonho, estremecida.

Momentos antes vivera-se o grande dilema:
Os pais estão perto dela e ajudam-na na sua decisão. Numa sala de hospital, está preparada para a grande operação. Soubera que, por razões a decifrar, dificilmente sobreviveria se não a fizésse. A única maneira de ser salva seria esta intervenção que a devolveria ao início dos inícios – o retorno ao colo da mãe. Uma intervenção clínica tornaria o seu tamanho adequado a passar nove meses no útero materno, permitindo-se nascer outra vez.

Sente-se um súbito nervosismo no ar. Há uma hesitação presente. A angústia. Tem de saber o que acontece depois…
Depois? Depois, dizem os médicos, após o nascimento não se lembrará de nada. Assim como todas as pessoas que nascem não se recordam da sua vida anterior.

Era um pouco como a morte, pensou para si, sentindo um peso maior no peito. Já em lágrimas, pediu aos pais que a relembrassem quando nascesse. Contudo, rapidamente concluíu que esta situação, mesmo contada pelos pais quando tivésse idade para compreender, apareceria aos seus olhos como um facto disparatado, absolutamente inverosímil. E ela tinha que saber. Ela tinha que se lembrar.

A mãe, já de bata, preparava-se para a receber de novo. Uma dádiva que a poucos seria concedida.
No entanto, a angústia cresceu a limites desmesurados quando compreendeu, enfim, que, para além da hipótese ainda que remota de não conseguir nascer, e morrer no processo, nunca seria a mesma pessoa. De facto, seria criada de modo diferente, num espaço diferente, num tempo diferente. Nunca seria ela própria. E pior: nunca poderia recordar como fora. Contudo… quereria fazê-lo?
A dúvida. A incerteza. A ambivalência. Nascer ou morrer, ficar ou partir. Arriscar?
A verdade é que este renascimento, este agradável recolher ao morno colo materno, lhe parecia, ao mesmo tempo, uma morte.

Desperto onde as lágrimas não chegam.

“Woman Reborn”, Kay Ekwall