Da materialização do virtual

03/11/2009

por Carlos Filipe
Nos últimos anos a expressão realidade virtual deixou de causar o olhar de soslaio que originava no início dos anos 80.
Remetendo para um universo não real, o virtual sempre existiu nas lengalengas, nos contos, nos livros, nas peças de teatro que colocam em contacto com uma dimensão muitas vezes imaginada e que por isso mesmo não existe fora da imaginação.
A tecnologia em tempos mais recentes tratou de baralhar e voltar a dar virtual e real, confundindo e estreitando dimensões, o que obriga a um particular cuidado no sentido de não serem criadas confusões, por sinal bem reais, ainda que no mundo virtual, mas com claras consequências no real.
Confuso? Talvez não.
Hoje o virtual passa pela agência bancária, pelo supermercado, pela livraria que “vivem” para lá da imaginação, da ficção, apesar de fisicamente não existirem, ainda que permitam de forma muito concreta interacção com o mundo real ao ponto de recebermos os produtos que escolhemos virtualmente através duma qualquer aplicação informática no conforto do lar.
Um exemplo corriqueiro deste entrelaçar de realidades e do perigo da confusão de identidades real/virtual, são os agora frequentes emails de phishing, virtualmente representando entidades bancárias e que quando os mais incautos fornecem dados pessoais, constatam o desaparecimento bem real de muitos euros das contas bancárias.
No plano pessoal, esta dicotomia é exponenciada e não raras vezes é frequente encontrar personagens virtuais que estão muito para além dos criadores de carne e osso. Na montra da Internet, nas inúmeras redes sociais que continuam a crescer, abundam perfis para todos os gostos. E aqui claro, toda a gente mostra o que de melhor tem. São mais altos, mais fortes, mais inteligentes, mais bem sucedidos profissionalmente. Alguns chegam a ter super poderes, outros primam pela simplicidade extrema.
Nesta exposição virtual, de uma forma ou de outra, os excluídos de grupos sociais reais, conseguem por copy and paste, ou recorrendo ao photoshop, estar incluídos, inseridos em redes sociais que por vezes tem por único ponto de contacto isso mesmo, o cabelo ruivo.
O exemplo contrário também é esclarecedor.
Jaron Lanier o pioneiro da expressão, “realidade virtual”, cientista computacional, visionário tecnológico, músico e escritor, alertava em 2006 no ensaio DIGITAL MAOISM, que apesar de só ter realizado um filme experimental mostrado apenas uma vez num festival e que se sentiria muito mais confortável se nunca mais ninguém visse a obra, estava referenciado na Wikipédia como um realizador.
Segundo Lanier não ser realizador no mundo real era fácil, mas no universo alternativo, sempre que corrigia o registo, no espaço de um dia voltava a desempenhar a actividade, introduzida por alguém.
Curiosamente ou não, os repórteres que o entrevistavam perguntavam pela carreira como realizador.
Daqui decorre que as personagens virtuais reflectem bem mais do que os seres reais que lhes servem de sustento. São um acrescento difícil de aquilatar mas que é necessário acautelar. Tomar estas criações por reais tem já dado resultados catastróficos como se sabe.
O mesmo acontece quando se comenta um blogue. Libertos das restrições do mundo real, é fácil os dedos se deixarem embalar por este ser virtual que se agiganta no apontar, indo muito além do que resultaria de um olhos nos olhos.
Na Nazaré virtual e real parecem ter-se fundido num só, o resultado está num blogue. Esperemos que também aqui a separação seja clara para todos.

Post Sciptum – Afinal, parece que de Zé Tafofóbico todos, mas todos, literalmente todos, sem excepção temos alguma coisa.


350 ppm

24/10/2009


Apocalíptico

23/10/2009

Nada, da troca de palavras entre José Saramago e Carreira das Neves nada se alterou. Polémica foi a apresentação do livro e os 50 mil exemplares estão vendidos.
Ficam uns versos,

Não acabava, quando uma figura
Se nos mostra no ar, robusta e válida,
De disforme e grandíssima estatura;
O rosto carregado, a barba esquálida,
Os olhos encovados, e a postura
Medonha e má e a cor terrena e pálida;
Cheios de terra e crespos os cabelos,
A boca negra, os dentes amarelos.

Tão grande era de membros, que bem posso
Certificar-te que este era o segundo
De Rodes estranhíssimo Colosso,
Que um dos sete milagres foi do mundo.
Cum tom de voz nos fala, horrendo e grosso,
Que pareceu sair do mar profundo.
Arrepiam-se as carnes e o cabelo,
A mim e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo!

Os Lusíadas

Simbólico ou literal???


(In)genialidade

22/10/2009

Costuma ler autores portugueses?
Alguns, aqueles de que gosto.

Em Portugal há dois autores que vendem muitos livros, Miguel Sousa Tavares e José Rodrigues dos Santos, que aliás têm em comum consigo o trabalho na área da informação [José Saramago foi director adjunto do Diário de Notícias]. Ambos acabam de apresentar as suas mais recentes obras. Já leu algum livro deles? Considera-os como autores…
[Interrompendo] Como poderia não os considerar como autores se eles o são?

Como autores de uma literatura maior…
Bem, essa discussão sobre o que deveria ser ou poderia ser uma literatura maior também nos levaria longe. Mas como eu não li realmente nenhum deles não posso ser efectivo juiz nesta matéria. Em todo o caso, não diria nunca que esses livros não têm méritos literários. Como não os li não posso confirmá-lo, mas não tenho dúvidas de que se possam encontrar ali méritos literários. Aquilo de que eu não gosto, e tenho direito a isso, é a operação de marketing, que essa não tem nada a ver com literatura. O que digo é que a forma de lançar os autores, estes autores, obedece a um marketing implacável.


José Saramago ao DN em 28 de Outubro de 2007

Aprecio muito a escrita do Nobel da Literatura português. Li um número considerável de livros da vasta obra já editada. Ao mesmo tempo que arrebata com as palavras, que encanta com o ritmo e cadência de leitura, Saramago foi sempre um escritor altivo, distante, provocador, atributos que de uma forma ou outra ajudam sempre a vender.
O inesperado foi esta aparente jogada de marketing que está prestes a esgotar a primeira edição do mais recente livro, Caim. “Literatura em estado puro” como já tinha anunciado oportunamente Pilar Del Río no blog do escritor, que a par das declarações de José Saramago sobre a Bíblia e Deus na conferência de apresentação, desviaram a atenção da obra mais recente, colocando o acento tónico nas declarações do autor e reacções suscitadas.
Assim temos telejornais, rádios, jornais e claro, blogues debruçados sobre o enfado do Nobel com as confissões, em particular a católica.
Além de não necessitar(?), José Saramago à luz do que declarou ao DN em 2007, parece relativizar a expressão “manual de maus costumes”.

Ps – para que fique bem claro, para mim continua Genial

http://talqualmente.files.wordpress.com/2008/10/depoisdecasado_saramago1.jpg


As certezas do meu umbigo

21/10/2009


A história repete-se. Acordos de cavalheiros muito bem, mas ao sabor das certezas do meu umbigo. É mais um contributo para a degradação e descrença da vida política nacional. Depois do episódio da quase ridicularização pública que envolveu a “eleição” do provedor de Justiça, onde por sinal foi ponderado o nome de um nazareno que nem desagradaria ao Primeiro Ministro, a “necessidade” de entendimento entre Ps e Psd prepara-se para nos presentear com mais uma novela.
Desta vez a trama assenta na atribuição da Presidência da Associação Nacional dos Municípios Portugueses (ANMP), assunto já tratado por um blogue cá da vila.
Após a vitória repartida nas autárquicas por parte de Manuela Ferreira Leite e José Sócrates, o meu umbigo volta a fazer das suas e complica o que uma sã convivência democrática poderia tornar relativamente fácil.
João de Almeida Santos, adjunto do gabinete de José Sócrates e autor de entre outros do ensaio, “Actualidade de Maquiavel. Viagem pelas releituras de Maquiavel”, onde faz notar «Assim se emancipa a política quer da imputação transcendente do poder («divindade») quer da imputação ética da acção política (imperativo categórico).», reclamou para o Partido Socialista o cumprimento do acordo de cavalheiros que tem regido a atribuição da presidência da ANMP, uma vez que apesar do Psd ter conquistado mais autarquias, o PS elegeu mais representantes.
A pergunta surgiu quase de forma imediata, concebe João de Almeida Santos ética no honrar de um acordo de cavalheiros, mesmo que seja um acordo político?
O vosso umbigo que decida.


Febre

18/10/2009

“existem evidências experimentais, em animais e humanos, de que temperaturas elevadas estão associadas à redução da reprodução microbiana e viral e ao estímulo da actividade imunitária”
Jornal de Pediatria

http://ebygum.tumblr.com/search/earth+apple

E se a Terra fosse só mais um organismo?
E se o aquecimento global fosse uma forma de febre?
E se a Terra estivesse a lutar para voltar ao equilíbrio?


Pena capital

16/10/2009

Via-as da sua cela a caminho da sala de execução?
Via-as sim. Choravam e tremiam. Urinavam-se enquanto caminhavam…

De todos os dias que lá passou, qual foi o pior?
Aquele em que mataram o meu melhor amigo, Benny Temps. Tinha-o visto com a sua família, os seus filhos, a despedirem-se…

Joaquín José Martínez, três anos no corredor da morte
(ao jornal Público)

A pena de morte é historicamente transversal a todas as culturas e sociedades. Lapidação, decapitação, envenenamento, enforcamento, fuzilamento, electrocussão, injecção letal, execução por gás, são métodos utilizados pelo Homem para ceifar a vida ao seu semelhante.
É difícil conceber que a morte possa ser de alguma forma uma solução, que uma sociedade sinta que é de alguma maneira ressarcida ao colocar término a algo de tão extraordinário como a vida. Que matando se evitem futuros crimes, se salvem vidas.
Tão pouco vale a pena referir o repetido desrespeito à vida que um assassino teve face a uma vitima ou o igualar da nossa condição ao defendermos a morte de um destes criminosos.
Desconfio ainda assim que era capaz de desejar a morte em situações extremas, mesmo consciente que agindo assim só podemos ser piores pessoas.
Mas a morte não pode ser solução, é um erro crasso, é uma falta de dignidade, humanidade, ao outro, mas ainda antes, a nós próprios, todos humanos, todos vivos.

Devaneio após ler a noticia no público de quarta feira que estava para aqui perdido.


Suberco dive – Um mergulho no futuro

14/10/2009

foto - Joaquím Hernández
A Nazaré mudou deixando para trás o fantasma da mudança.
Os nazarenos decidiram domingo passado nas urnas mergulhar em direcção ao futuro que em quatro anos conhecerá uma nova realidade política. Este é um mergulho vertiginoso que abre perspectivas e oportunidades novas, revestindo-se de responsabilidades acrescidas para toda a gente.
Para o reeleito e já a prazo Jorge Barroso, uma oportunidade singular se vislumbra.
A prazo porque 4 anos serão manifestamente pouco para a edificar a imensidão da obra a que o Presidente da Câmara se propõe. Este será um salto quádruplo e meio mortal para frente, um movimento difícil, mas que pode permitir ao chefe do executivo nesta recta final deixar uma marca Barrosista que perdurará na memória colectiva de todos os munícipes.
Concretizando ALE, Nazaré XXI, Centro de Alto Rendimento de Surf, Paços do Concelho, Mercado Municipal, Hospital, Teleférico para a Pederneira e Parque Subterrâneo de Estacionamento na marginal, Jorge Barroso verá o nome suspirado por muitos e longos anos.
A pergunta surge naturalmente, “E depois do adeus?”. Esta indagação marcará na Nazaré, salvo as devidas distância e as interpretações que muitos quererão fazer, um novo ciclo – o pós Barrosismo a par da inversão da sempre exclamada, “Nazaré bastião socialista”.
O sucessor surgirá de onde? Da concelhia é pouco provável em função da visibilidade do trabalho que produzem, menos do que zero, o que resulta no facto de a grande maioria dos votantes laranja desconhecerem um só nome de quem a compõe. Ainda assim e apesar disso mesmo, o presidente da Comissão Política de Secção do PSD da Nazaré foi a votos e acabou eleito sugerindo que o futuro está já ao virar da esquina. De qualquer das formas, parece que um salto em equilíbrio, o grupo de saltos de execução mais sensível, será necessário para credibilizar esta alternativa. Por outro lado, convenhamos, desde quando um nome forte teve de fazer trabalho de base num partido, ou passar pela concelhia?
Vítor Esgaio aparenta ter um futuro espinhoso pela frente. Optando pelo salto mais fácil, em grupada para a frente, defendendo a ideia do dois mais um deputado, o advogado coloca-se de feição para a penalização mais directa de quem se lhe oporá, quatro menos um deputado.
Independente da perspectiva, esta foi uma clara derrota da lista “socialista” e a bem da politica local, neste tipo de resultados é natural que o discurso interno seja mais crítico e apareçam vozes “dissonantes” para que no mínimo seja possível executar mais do que um tipo de salto se a necessidade assim reclamar.
Uma conclusão é evidente, oposição eficaz ao executivo de Jorge Barroso será a base de uma próxima candidatura de Vítor Esgaio, ou talvez não. Já algures foi lido que o futuro local do Partido estava assegurado com gente muito boa e competente. Talvez já exista sucessor mas não se tenha ainda reparado. No que toca ao trabalho da concelhia os resultados estão à vista.
Barack Obama foi premiado na última sexta-feira com o Nobel da Paz, um anúncio que deve ser inspirador e que leva imperiosamente a um salto sincronizado à retaguarda, pleno de destreza, rigor na execução, com cadência dos movimentos e que permita no fim uma boa entrada na água.
Daqui se estabelece facilmente uma relação causa-efeito, é mais fácil escrever do que ver acontecer, ainda assim, quem estiver a experienciar estas linhas como um afastamento de Vítor Esgaio desengane-se, o advogado terá um papel essencial no que estará para acontecer.
João Delgado apresentou-se a eleições numa posição de risco. Renovar uma qualquer estrutura de um partido traz sempre atritos associados, a começar pelos próprios simpatizantes que numa estrutura “envelhecida” tendem a voltar costas à insegurança do fazer de forma diferente. Ainda assim, o candidato da CDU parece ter ganho a aposta e o futuro avizinha-se solarengo. Ter tido menos votos do que o candidato à Assembleia Municipal tem razões que serão abordadas oportunamente, sendo que esse resultado está também directamente ligado à boa campanha de João Delgado. Um salto esticado para a frente continuando a linha do que está a ser feito pode permitir um futuro muito interessante aqui.
Fábio Salgado não desiludiu. A eleição é a prova disso mesmo. Quem vaticinava mais do que a eleição do Fábio atente ao que disse Francisco Louçã. Muito trabalho espera o Fábio e a Telma que imperiosamente necessitam de chamar a si simpatizantes. Este será um salto em parafuso, livre, para a frente, para trás, reverso e para dentro, um salto difícil, muito difícil de executar.
Paulo Marques tem o condão da coerência do discurso. Os ideais das ideias que defende mantêm-se inalterados o que pode ser comprovado por quem conhece o Paulo e ao longo dos anos vai ouvindo o que ele tem para dizer. Este mergulho que “planeou” nas autárquicas teve uma entrada de “chapa” na água mas por certo que ainda ouviremos mais do representante do CDS.


H2Omem

09/10/2009

foto Nasa


Excelência “à chouriçada”

09/10/2009

” – O associativismo está em crise. – Errado, as razões que levam o Homem a associar-se existem agora como sempre, o que está em crise é o dirigismo associativo. – A razão primeira que historicamente uniu e direccionou uma congregação de esforços comuns , a solidariedade, desapareceu da sociedade actual. – É extremamente difícil arranjar pessoas com disponibilidade para compor os órgãos sociais de uma qualquer associação. – Já ninguém quer fazer isto de borla.”.

Estas e muitas outras ideias já foram por certo ouvidas em muitas das nossas conversas de café.
Não querendo “esmiuçar” como parece ser engraçado escrever, as causas destas aparente travessia no deserto do associativismo, que enfrenta a adaptação a uma sociedade eminentemente tecnológica onde existe um apelo latente ao lazer, ao divertimento, onde muitas vezes o contacto entre sócios se esgota na duração, frequentemente efémera das actividades que promovem, onde cada direcção implementa um projecto e raramente utiliza o léxico continuação, onde os associados se referem ás suas direcções como um corpo diferente a si próprios, existe aqui ao nosso lado um exemplo a reter.
O Casal Velho recebeu faz duas semanas o galardão “excelência na formação”, atribuído pela AF de Leiria. Este prémio é fruto do sucesso desportivo dos escalões de iniciados, juvenis, juniores e seniores de futsal, feitos que mereceram uma página completa de destaque no jornal Record de ontem.
Quatro anos de existência chegaram para conquistar duas taças distritais, o titulo distrital de juniores, o titulo distrital de juvenis, dois torneios de encerramento, duas subidas de divisão dos seniores e o terceiro lugar do campeonato nacional de juvenis na época 2006/2007.
Mas a singularidade desta colectividade não acaba aqui.
Sem recorrer a patrocínios ou subsídios, o suporte financeiro das quatro equipas advém da venda de pão com chouriço na padaria do clube.
Convenhamos, tem tanto de insólito como de inspirador.
E no meio desta excelência está um técnico nazareno a consolidar uma carreira promissora já recheada de vitórias.
Centro Cultural Desportivo e Social Casal Velho, associativismo, dirigismo e sucesso de mãos dadas.